Esse texto é continuação da matéria 'Ampliando a reflexão sobre as drogas' do Prevenção em Rede 11
 
“O desafio dos envolvidos no projeto é muito grande, não se tratando apenas da execução de atividades lúdicas, mas da intervenção em diversos fatores sociais, criminais e de saúde, que podem implicar no descumprimento ou em problemas no desenvolvimento do grupo temático. Nessa situação, aproximação entre as equipes e as instituições que compõem a rede é essencial”. A fala é do diretor do Programa Central de Acompanhamento de Penas e Medidas Alternativas (Ceapa), Lucas Pereira de Miranda, ao analisar a atuação dos grupos reflexivos sobre drogas, que reúnem os usuários da Ceapa autuados pelo artigo 28 da Lei 11.343, conhecida como Lei de Drogas. Este ano os grupos ganharam novo fôlego e têm ações previstas para todo o estado de Minas Gerais, com a recente assinatura de contrato entre o programa e novas instituições parceiras.
 
De acordo com Lucas, a chegada das novas instituições para a realização dos projetos temáticos sobre drogas contribui com o próprio programa no aprofundamento sobre o tema: “As entidades que trabalharão conosco são ONGs, clínicas e comunidades terapêuticas que possuem histórico de atuação na área, apresentando capacidade técnica e conhecimento sobre a temática. Ao trabalharmos em parceria com essas entidades, ocorre um intercâmbio em que a Ceapa recebe ideias, referências e propostas de debate que agregam conhecimento a sua equipe e à Política de Prevenção [saiba mais sobre esta] como um todo”.
 
Outro motivo que para o diretor ressalta a importância dessas parcerias – são cinco instituições que, até o final do ano, desenvolverão 70 grupos em 12 dos 13 municípios atendidos pela Ceapa –, é o fato de que, infelizmente, muitos municípios ainda carecem de uma rede adequada de serviços que possa ofertar atendimento integral aos usuários envolvidos com as drogas: “Quando uma situação de abuso ou dependência química acarreta dificuldades ou prejuízos na participação no grupo, a equipe precisa suspender o cumprimento para que outros cuidados sejam oferecidos. Isso leva, muitas vezes, a um hiato longo entre o atendimento da equipe da Ceapa e o retorno desses usuários ao projeto”. 
 
Sobre as possíveis vulnerabilidades identificadas em meio aos usuários da Ceapa envolvidos com drogas, além dos casos de uso abusivo, dependência química e prejuízos à saúde, há também a redução do círculo social, inclusive com distanciamento familiar, baixa escolaridade e renda, entre outros estigmas sociais que reduzem as possibilidades dos usuários encontrarem suporte em seu processo de recuperação.
 
São problemas como esses que, segundo a diretoria da Ceapa, fazem o público do grupo de drogas possuir o maior índice de recorrência no sistema de justiça criminal, dentre os grupos temáticos trabalhados pelo programa, que incluem ainda infrações de trânsito, violência doméstica e meio ambiente. Por outro lado, dados da pesquisa sobre reentrada dos usuários da Ceapa no sistema de justiça, realizada em 2011, apontam que a efetividade dos grupos sobre drogas é maior em comparação às outras medidas alternativas promovidas pelo programa, como a prestação de serviços à comunidade.

Experiência rica com o tema
Nos projetos sobre drogas, especificamente, os participantes são chamados a refletirem sobre a sua relação com os entorpecentes e os contextos de risco envolvidos nesse contato. Dentro do projeto, os participantes discutem sobre os danos potenciais à saúde e aos relacionamentos tanto pessoais como profissionais, são também informados de maneira mais detalhada sobre os conflitos com a legislação e ainda recebem orientação sobre onde e como buscar auxílio e proteção social para vencer as precariedades associadas ao vício e à condenação judicial.
 
Esse tipo de trabalho é realizado há nove anos pelo Movimento Integrado de Saúde Comunitária (MISC), de Governador Valadares, no Vale do Aço mineiro, que é uma das novas organizações parceiras da Ceapa na realização dos grupos sobre drogas. De acordo com a coordenadora de projetos do MISC, Marlene Rodrigues Gomes da Silva, é importante que as atividades desenvolvidas em grupos como esses sejam adequadas ao perfil dos usuários e respeitem seus limites: “É importante não invadirmos o espaço pessoal dos participantes, pois muitas vezes eles possuem dificuldades de se expressar. Com o tempo eles começam a ser mais participativos e a contribuir com as atividades de forma espontânea, naturalmente. No fim, vários conseguem ultrapassar as barreiras, muitas delas da própria pessoa, e acabam trazendo relatos positivos sobre sua experiência e aprendizado”.
 
Outra entidade que está entrando nessa frente de trabalho com a Ceapa, em 2014, é a Associação Brasileira Comunitária para Prevenção do Abuso de Drogas (Abraço), fundada em 1985 pelo ex-deputado federal e hoje falecido Elias Murad. A instituição, que é reconhecida no estado como centro de referência no atendimento ao dependente químico, realizará os grupos em Betim, Contagem, Ribeirão das Neves, Santa Luzia e Vespasiano, municípios da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Para a gestora de projetos da Abraço, Adélia Porto, o "x" da questão é realmente sensibilizar  os participantes sobre as consequências do seu envolvimento com as situações que geraram os delitos pelos quais foram encaminhados à Ceapa. “Entendemos que estas pessoas não podem ser vistas apenas como números a serem alcançados em um esforço político de momento. Cada uma delas precisa ser compreendida em sua complexidade de sujeito que, muitas vezes, mesmo sem reconhecer, necessita de auxílio e orientação”. 
 

Intimidade em grupo transforma o indivíduo
“Estamos aqui por motivos parecidos e, neste espaço do grupo, nos sentimos à vontade para falar sobre as experiências que temos com as drogas”. “É um lugar onde podemos refletir sobre o uso das drogas em diversos pontos”. “Considero um espaço construtivo, que respeita a minha liberdade de expressão, e acredito que seja uma alternativa melhor do que a prisão, pois aqui posso refletir sem perder a cidadania”. São com frases como estas que os usuários atendidos pela Ceapa no Centro de Prevenção à Criminalidade (CPC) Centro de Belo Horizonte avaliam a sua participação e aprendizado durante o período que estiveram no grupo sobre drogas.
 
Para o psicólogo do Centro de Recuperação de Dependência Química (Credeq) – instituição responsável pelos grupos temáticos na capital mineira –, Rodrigo Vasconcelos Raslan, o caráter reflexivo dos grupos permite que, em muitos casos, os usuários possam expressar a sua experiência com as drogas de uma maneira mais aberta e construtiva, trocando depoimentos como os citados acima: “Cada usuário tem uma história singular e o que noto é que, após os primeiros momentos de apresentação, onde ainda existe certo receio, eles passam a se sentir bem, pois se rompe a ideia de alguns de que o grupo é um espaço de repressão. Penso que esse movimento é extremamente importante, já que para haver produção de saber e crescimento pessoal é necessário criar um ambiente onde eles se sintam bem acolhidos”. 
 

Ainda de acordo com Rodrigo, para que esta relação de confiança seja criada, também é preciso utilizar uma metodologia que seja atraente e desperte o interesse dos usuários. “Trazemos até o grupo estudos, dinâmicas, filmes e outros materiais que enriquecem a abordagem da problemática. Porém, mais do que isso, valorizamos muito a opinião deles, dando ao grupo o papel de protagonista e proporcionando a cada um dos participantes a oportunidade de falar o que pensa sobre o assunto. Às vezes, a pessoa que está aqui conosco nunca foi ouvida e sempre foi colocada num lugar em que a opinião dela não interessa. Mas, quando chega aqui, tem a liberdade de falar e a valorização do que diz, esta pessoa se sente mais pertencente, mais cidadã”, ressalta o psicólogo.
 
 
CPC citado na matéria:

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