Uma das participantes do encontro, Neusa Costa, representante da Sociedade Espírita Maria Nunes (SEMAN), destacou em seu momento de fala que os usuários parecem encontrar no trabalho voluntário da prestação de serviço à comunidade um ambiente de acolhida, com os novos relacionamentos estabelecidos.
 
Opinião endossada pelo diretor Lucas: “É um aprendizado para o sujeito que está em cumprimento, mas também para a entidade. Entendemos que a experiência prolongada dessas instituições com os usuários faz com que elas repensem que pessoas são essas, de onde vêm... Começam a ver que aquele indivíduo não é, em si, o delito. Pelo contrário, é o João que mora na comunidade há tantos anos, que tem o filho estudando na escola ‘X’, que também frequenta o centro de saúde, que tem dificuldades, mas também ajuda muito. E aí a relação daquelas pessoas muda demais, inclusive fortalecendo o capital social daquele lugar”.
 
Como o outro lado da moeda, a assistente social do Hospital Sofia Feldman, Ana Paula de Miranda, lembra que em alguns poucos casos acontecem problemas, como quando os usuários parecem querer intimidar as entidades, ao fazer questão de relatar sua história pregressa, ostentando o delito. Nesse ponto, intervém a gestora social do CPC Centro de BH, Elizabeth Maria Martins, e lembra que em situações como essa, mais do que nunca, é preciso fazer valer o apoio da rede: “É preciso dialogar, para compartilhar as pressões e a insatisfação. No caso da Ceapa, além do contato telefônico e das visitas, a equipe também está aberta a receber os representantes no próprio CPC”, destaca.
 
A técnica Natália acrescenta que outra estratégia para tranquilizar as entidades e prevenir problemas no recebimento de um usuário é a transparência no encaminhamento: “Toda a ficha do usuário é passada antes, incluindo o artigo em que foi citado e suas aptidões, de modo que a instituição tenha a capacidade de avaliar se tem ou não condições e interesse de receber aquela pessoa. Afinal, não é obrigatório”.
 
Mas, caso o cumprimento não aconteça da maneira adequada, explica a técnica Luciana, a situação é analisada com cuidado e procura-se encaminhar o usuário a uma outra instituição que possa ser mais próxima de seu perfil e habilidades. “Agora, se a pessoa realmente não está disposta e houver uma falta de compromisso, então a gente avisa que está retornando com ela ao juizado e que informaremos o descumprimento. Mas isso é a última opção”, ressalta Luciana.
 
Transformação educativa
Vice-diretora da E. E. Tancredo Neves, que recebeu o Encontro de Rede, Neivisonina Aparecida de Paula Mol diz que outra dificuldade comum surge quando o público beneficiário da instituição fica resistente ao saber que uma pessoa em cumprimento de medida está fazendo parte de seu quadro funcional: "Quando os pais ficam sabendo pode ser complicado. Até a gente mostrar que essa também é uma forma de educar... Ainda é muito comum o pensamento, 'ah, mas isso é problema do Estado'... Mas e o nosso compromisso como cidadãos?".
 
Um novo relato da assistente social Ana Paula exemplificou a transformações possíveis dos usuários a partir do acolhimento das instituições. Ela contou sobre um rapaz que chegou ao hospital muito rebelde, com dificuldades de se enquadrar nas regras, não se adequando, por exemplo, ao vestuário para atendimento do público: ia com camisa de time e aparecia a cada dia com o cabelo de uma cor diferente. Mas, a partir de um evento, Ana Paula conta que ele se viu mais próximo, incluído: “Eu havia comprado umas comidinhas para fazer um lanche coletivo com a equipe do hospital e, quando todo mundo foi se reunir, vi que o rapaz não estava vindo, então o chamei. A primeira coisa que ele fez foi questionar: ‘Mas eu posso também?’. Respondi que naturalmente... Tempos depois, ele me confessou que nunca tinha se imaginado dividindo a mesa e um ambiente de trabalho com pessoas tão profissionais”.
 
Colega de Neivisonina, Itamar Martins de Paula, diretor da E. E. Tancredo Neves, concorda com os efeitos educativos da experiência. Ele, que defende a lógica das penas e medidas alternativas de aplicação de sanções diferentes da privação de liberdade para delitos menos ofensivos, cita as mudanças que já viu na vida dos usuários da Ceapa recebidos pela escola: “Acaba mudando a rotina delas. No caso da escola, trabalhar num ambiente desses, muitas vezes representa um convívio desconhecido para aquela pessoa. Alguns vivem em ambientes onde a educação propriamente dita não é preponderante. Em alguns grupos o respeito é dado pela força, pelo poder, pela violência, e aqui dentro é pela palavra. Então, é uma mudança radical”.
 

O diretor da Ceapa, Lucas Miranda, acredita que a participação das instituições é fundamental efetividade do programa: “O diálogo desenvolvido aí permite sairmos de uma lógica de estigmatização e passar para possibilidades de inclusão. São criados laços que permitem deslocar a obrigatoriedade penal para um para um campo mais social, fazendo com que o sujeito se sinta menos excluído, ao construir laços de proteção social dentro da comunidade em que vive. Se a gente consegue colocar essa perspectiva para as entidades, então, elas tornam-se uma ferramenta gigante de prevenção social à criminalidade”.